O analfabetismo científico
- Pedro

- 16 de mai. de 2020
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O chamado "analfabetismo científico" é um fenômeno comum atualmente. O público em geral não está interessado na ciência em si, mas nos seus produtos, as tecnologias, produzidas em crédito à ciência. Qual o motivo para essa aparente contradição? Existem algumas explicações possíveis. A sociedade contemporânea é muito dinâmica, todos possuem um cronograma e o tempo é um recurso valioso; como resultado, as pessoas optam por não gastar o pouco tempo que têm em função da ciência. Outro fator pode ser a "inacessibilidade fictícia"; as pessoas tendem a considerar a ciência como um assunto difícil, portanto evitam a literatura científica, restringindo-se (e distanciando-se) da ciência. Mas e quanto a juventude - o futuro do mundo?
O interesse natural das crianças pela ciência (evidenciado em assuntos como dinossauros e espaço) parece desaparecer com o passar do tempo. Isso pode ser facilmente explicado com o fato de as crianças terem muita exposição à televisão e aos videogames, cujo conteúdo raramente se refere à ciência. Além disso, quando a ciência obtém uma representação na esfera do entretenimento, os cientistas quase sempre obtêm o estereótipo de "malvado" ou o clichê de "cientista louco". Quanto aos adolescentes, a ciência na escola se torna um obstáculo a ser enfrentado para se formar - não há proveito no aprendizado. Esses fatores desmotivam os jovens a seguirem carreiras científicas e contribuem para a ausência do contato com a ciência na idade adulta.
A ciência não se trata apenas de matemática e esforços para se revelar os mistérios do universo; existem amplas aplicações na vida cotidiana. Pessoas que não aplicam o método científico (mesmo inconscientemente) podem ser facilmente enganadas. Por exemplo, se um cheque de pagamento chega com um valor incomum, é razoável que a pessoa se pergunte o por quê, vá atraz dos possívies motivos e compare os preços usuais. Essa ação pode resultar em economia de dinheiro. Este é, na prática, o método científico - houve uma observação, formulação de hipóteses e experimentação. No entanto, se a pessoa não obtiver exposição à ciência de forma alguma, sua percepção de observar e analisar situações será prejudicada. O distanciamento da ciência é o principal responsável pelo analfabetismo científico.
Embora não seja tão fácil ler um artigo científico como uma história em quadrinhos, o esforço é realmente gratificante. A ciência, como mencionado, pode trazer e/ou melhorar pensamentos críticos e analíticos, argumentos mais fortes (com base em evidências), melhora na criatividade, soluções para problemas, etc.
O produto mais preocupante do analfabetismo científico é o surgimento de teorias da conspiração e negadores da ciência. Existem alguns movimentos que contestam fervorosamente a ciência estabelecida. Terras planas e anti-vacinas são exemplos perigosos de uma falha ressonante na sociedade. Por um lado, o movimento da terra plana infecta o conhecimento das pessoas, transformando-os em mentiras. Com isso, surge um efeito de regressão geral, pois os cientistas precisam se esforçar para "reestabelecer" os conhecimentos básicos. O fato de a mesma humanidade que foi à Lua 50 anos atrás agora ter uma porcentagem crescente de terra-planistas é peculiar; percebe-se um verdadeiro revés intelectual. Ainda, o movimento anti-vacina é ainda mais perigoso, pois ameaça a saúde das pessoas.
Os negadores da ciência geralmente declaram a ciência como inimiga por causa de opiniões e crenças estabelecidas. Quando a ciência fornece as verdades objetivas que confrontam e divergem dessas opiniões e crenças, algumas pessoas fazem com que seus objetivos de vida sejam manchar a imagem da ciência. As chamadas "pseudociências" são as contrapartes da ciência, baseadas, principalmente, no misticismo. Por exemplo, astrologia é a pseudociência da astronomia. Os amantes das pseudociências não desejam ceder à ciência, eles se apegam aos princípios pseudocientíficos e até lutam por eles, não importando quantas evidências os desprovando sejam apresentadas. Além disso, é irônico o fato de mesmo negadores da ciência fazerem uso freqüente de produtos científicos, seja na forma de eletricidade, transporte, geração de calor, GPS, telefones, etc.
Mas quando aconteceu essa “ruptura”? Quando as pessoas começaram a perder a confiança na ciência? Pode-se dizer que a Segunda Guerra Mundial foi o ponto de ignição; nela houve uma escala de destruição que a humanidade nunca havia visto anteriormente, e as principais ferramentas para tal devastação foram as bombas atômicas. A partir desse ponto, há o surgimento de indivíduos que difamam a ciência, por exemplo, culpando-a pela produção de bombas. Não foi a ciência que produziu as bombas, mas sim os humanos.
Hoje em dia é fácil ver como as pessoas encaram a ciência de forma errada; por exemplo: o termo "teoria" é amplamente usado em conversas casuais e é freqüentemente confundido com seu significado científico. No bate-papo coloquial, "teoria" significa algo que não está provado, uma mera idéia. No entanto, na ciência o mesmo termo possui um significado profundo; significa que uma ideia foi submetida rigorosamente a análises, experimentos e manteve-se consistente após diversas tentativas de desprova-la. A ambiguidade do termo gera em certo sentido que teorias científicas são apenas idéias, suscetíveis a erros. A ciência ganha uma reputação de algo flexível, não rigoroso (o que claramente não é o caso).
Ainda, é comum que se levante hipótes e, prontamente, já as tomem como verdades objetivas (ignorando os passos posteriores do método científico). Essa prática leva à produção de informações falsas, promovendo a desinformação científica na sociedade. A ciência é, em seu nível mais fundamental, verdadeira e confiável. Afinal, é o motor que empurra a humanidade para a frente.
Inspiração: O Mundo Assombrado pelos Demônios (Carl Sagan)




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